Abaixo segue a solução encontrada em Belo Horizonte para o problema com os carroceiros. Lá deram dignidade aos carroceiros. Aqui tiraram o trabalho. Por que não fazer aqui? Bom cada um formule a sua resposta.
Ah e já ia esquecendo, é claro que o projeto não foi criado por vereadores ou deputados. Foi uma iniciativa dos estudantes, ou seja, do povo que quer a mudança. O “povo” aqui no sul quer a eliminação. E esse é o estado diferente. O estado politicamente correto. O estado da evolução.
A mudança por lá já iniciou e por aqui?
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SOLIDARIEDADE A GALOPE
Projeto multidisciplinar da UFMG muda a vida dos carroceiros e alcança reconhecimento nacional
O mineiro Marco Antônio Soares aprendeu a lidar com os cavalos quando ainda nem podia imaginar que um dia esses animais seriam companheiros de sobrevivência. Aos 14 anos, levava os cavalos de amigos para pastar ou tomar banho. Aos 21, comprou Pivete, “um cavalo comum, novo e arisco”. Durante mais de um ano, Pivete foi amansado. Seu destino estava traçado: era puxar uma carroça no asfalto, carregando entulho, sobra de poda, lixo, móveis, gás, o que desse. No ano passado, depois de quatro anos de trabalho, Pivete foi trocado por Chaparral. Este, sim, um animal velho de guerra, de nove anos, “esperto que nem ele só” e também com o destino certo: a carroça herdada de Pivete.
Chaparral e Marco Antônio, de 27 anos, fazem parte do Projeto Carroceiro, ganhador, em apenas cinco anos de existência, de dois prêmios nacionais e um da própria UFMG. Coordenado pela professora Maristela Silveira Palhares, do departamento de Clínica e Cirurgia da Escola de Veterinária, a experiência transmitiu aos carroceiros de Belo Horizonte a consciência e a satisfação de ser cidadãos. Eles foram reconhecidos como profissionais. Já podem, inclusive, contribuir para o Instituto Nacional da Previdência Social como carroceiros. Ganharam identidade como tal, placa nas carroças e um amplo programa de atendimento a eles e a seus animais. Multidisciplinar, o projeto incorpora as escolas de Medicina e de Farmácia e a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas.
Estima-se que, na Capital mineira, existam dez mil carroças, responsáveis por grande parte do transporte de cargas indesejáveis, como entulho ou lixo, e até por pequenas mudanças de famílias. “Eles estão por toda parte”, destaca Maristela Palhares. Ela lembra que uma das maiores motivações para a formação do projeto, em convênio com a Prefeitura, foi levar ao carroceiro a consciência profissional e destacá-lo como agente de preservação ambiental. O resultado positivo é evidente: os carroceiros integram, por exemplo, um programa de reciclagem de restos da construção civil. Todo entulho encaminhado para qualquer das 14 Unidades de Pequenos Volumes implantadas na cidade é transformado em piso asfáltico e em tijolos para construção de baixo custo.
Em 1997, no início do projeto, foram recicladas 36 mil toneladas de entulho. “Seis anos depois, em 2001, foram 95 mil toneladas”, comemora Maristela Palhares. A reciclagem é parte de um programa maior, que abarca o atendimento ao carroceiro e ao seu animal.
Ao profissional, são oferecidos cursos de qualificação, de educação no trânsito e de manejo de eqüinos. São promovidas, também, palestras técnicas a cada dois meses e um encontro anual de todos os carroceiros. Marco Antônio participou de quatro desses encontros.
Em função do projeto, foi criada uma regulamentação para o tráfego de carroças no Município e ainda o Disque-Carroça, telefone através do qual o serviço do carroceiro pode ser solicitado. As carroças foram emplacadas (mais de 800 até o final de 2001), e os carroceiros receberam carteiras de condutores. Marco Antônio constata que as mudanças foram grandes e exalta o controle de vacinação, o que, admite, não era feito com regularidade antes, apesar da ameaça constante de perder o cavalo. O Projeto Carroceiro dá assistência ao animal de forma integral. Na Escola de Veterinária, cavalos e éguas cadastrados passam por controles de doenças, de sorologia e de vacinação.
Foram vacinados mais de mil cavalos, um trabalho que é feito todas as sextas-feiras por alunos e professores, que vão às Unidades de Pequenos Volumes, seguindo uma agenda prévia. Além do atendimento clínico, os cavalos recebem atendimento hospitalar quando necessário. A Escola de Veterinária é também responsável pela marca de nitrogênio líquido que identifica o animal, uma forma de controle contra roubo, um grande problema vivido pelos carroceiros. “Se a gente não ficar de olho, o bicho some mesmo. Basta deixar dez minutos de bobeira que passa um e pega”, conta o desconfiado Marco Antônio.
O Projeto Carroceiro implementou um plano de melhoramento genético de éguas, que já contabiliza 69 potros nascidos e 43 éguas vão parir ainda em 2002. A cada ano, o atendimento aos carroceiros tem crescido, no mesmo passo em que a história de sucesso do projeto é reconhecida. Em 2000, ele conquistou o prêmio Gestão Pública e Cidadania, da Fundação Ford e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Este ano, recebeu o prêmio Milton Santos, da Fundação Oswaldo Cruz, e o Prêmio de Extensão, da Pró-Reitoria de Extensão da UFMG.
Matheus Felipe